quarta-feira, 17 de junho de 2009

Barreiras



Barreiras são feitas para serem quebradas, trituradas. Não exatamente...Podemos fazer alguns rabiscos coloridos; uns desenhos divertidos; lambuzar a mão de tinta e depois carimbar em sua parede; chamar amigos para ajudar; escrever mensagens sobre aquilo em que acreditamos; solicitar aos nossos pais como podemos fazer melhor, porque seus olhares são energizados de experiência de vida, e seus combustíveis, de amor. Podemos encontrar algumas curvas defeituosas feitas, retas destrambelhadas, emanharados de linhas perdidas em caminhos incompreensíveis, cores entrelaçadas em perfil desarmônico que nos confunde em nossas próprias escolhas. Tudo isso podendo ser construído sem a percepção de nossos erros ou como fazer para apagá-los ou redefini-los da melhor maneira possível, mas é assim que descobrimos nossos grandes mestres que nos ajudam a buscar o caminho certo, as cores concordantes, a simetria de nossos rabiscos e a geometria perfeita. Além disso, até podemos construir uma porta do tamanho do nosso esforço para que possamos atingir o outro lado do muro e torna-lo mais alegre..

Durante esses seis anos estivemos pintando e desenhando neste muro. Muro árduo, de limites revelados ano a ano. Muro de concreto e feições cinzentas e frias, porém hoje transformado, colorido, guardado na lembrança, porque hoje o vencemos. Hoje nos tornamos médicos. E como alunos, nós descobrimos na medicina segredos da vida. Ampliamos o ser humano para direções muitas vezes esquecidas. Passamos a decifrar as suas angústias, os seus sofrimentos, os seus medos, as suas frustrações, as suas mudanças. Descobrimos que pequenos detalhes podem nos revelar a essência de nossos pacientes e que eles têm o poder de nos mostrar nossos grandes erros. Compreendemos não somente os mecanismos anatômicos, os aspectos fisiológicos complexos, a arquitetura da patologia, os caminhos gerais das especialidades...Não somente isso...Aprendemos que os pacientes não são apenas nomes de doenças em quadros de salas de prescrições. Reconhecemos o grande valor do simples ato de chamá-los pelos seus nomes, a força de um aperto de mãos e a claridade que desloca a escuridão de suas dúvidas quando nos propusemos a explicar sobre a sua doença e o tratamento.

Abraçamos uma medicina que não só cura, mas que também transforma as vidas das pessoas. Ser médico significa mergulhar nessas vidas e ter a sensibilidade de reconhecer que provocar mudanças é uma via dupla que também o transforma, o torna melhor como pessoa. Tudo o que fizemos foi por alguém que ainda nem conhecemos, mas que em algum lugar, em algum momento, precisará de nossa ajuda e do nosso preparo. Todas as noites percorridas em conjunto com livros e apostilas, os finais-de-semana preenchidos de atividades que transbordaram de outros dias e o cansaço que em muitas situações sentimos o seu peso carregaram na essência esse objetivo.

Estivemos juntos pintando este muro. Às vezes um pouco mais próximos, outras vezes, mais distantes. Fomos introduzidos na vida de grandes pessoas, amigos que fizeram a diferença e que solidificaram um futuro impossível sem eles. A medicina se fez em uma especial e surpreendente interseção dessas vidas. Foram seis anos de dinâmica metamórfica. Partindo do início modelado pela admiração. Caminhamos absorvendo o que de melhor cada um possuía. Nos vemos chegar no fim, do outro lado do muro, transformados e tão parecidos. Construímos uma pequena família. Fomos muitas vezes confidentes únicos. Testemunhas de momentos inesquecíveis dessas pessoas inesquecíveis. Amigos que nos fizeram tão bem que se constituíam numa fonte poderosa de abraços silenciosos que abafaram muitas angústias sem disser uma palavra.

Hoje, olhamos por diante de nossos ombros e vemos um grande muro de cores. Não foi fácil, mas não estamos apenas aqui, deste lado, não apenas passamos pelo muro, fizemos mais que isso, fizemos desenhos com tinta vitalícia da dedicação nos dois lados. Tudo isso para que possamos olhar para trás e sorri, porque fizemos o melhor que podemos...