quarta-feira, 15 de julho de 2009

DEus chama Matheus!



Não eram apenas os abscessos que se digladiavam dentro do seu cérebro. Havia também cavidades com ar. Processos destrutivos que corroíam seu tecido nos dois lados, nos lobos temporais. A massa encefálica encharcada se comprimia aos limites ósseos. O líquido cefalorraquidiano abarrotava um dos ventrículos laterais enquanto o outro já se apagara. Todos esses processos contribuíam para aumentar a pressão dentro de sua cabeça. Tudo havia começado quando era apenas um bebê. Portado de lábio leporino, um fator de risco, apresentava infecção do ouvido de repetição que se alastrou por muitos anos. A sua mãe chegou a nos relatar que saia leite pelo ouvido quando Matheus mamava. Agora com 11 anos, a doença tornou-se crônica e a demora para o atendimento permitiu a instalação de infecção grave e de difícil manejo terapêutico. Pelos seus ouvidos, percorriam quantidade expressiva de material purulento de odor fétido. A infecção no ouvido havia lançado seus tentáculos para o osso mastóide, que fica atrás da orelha, e desenvolvido um quadro de meningite....

...Era a nossa primeira aula na enfermaria de pediatria no Hospital João de Barros Barreto. Em meio a diversas informações dispersas na sala de prescrição, nós conhecemos o Matheus como, segundo o diálogo que se transcorria lá naquele momento, “menino da secreção podre”, “...do odor pútrido que exalava de seu ouvidos e ”, do paciente que estava “ ‘empestiando’ a enfermaria”. Um estalo nos percorreu a alma. Sabíamos que seria um caso difícil, não apenas pela questão do estado do paciente, mas também por que sabíamos que seria difícil para nós acompanharmos um menino com tantas complicações sem sentir a amargura de um futuro sombrio para ele. Durante todos esses anos abraçados com a medicina, já chegamos algumas vezes ter como pacientes pessoas com sofrimento além do que poderíamos imaginar e acabamos por nos transportar para uma condição também de sofrimento, de frustração, de tristeza, de chegar a pensar nas pessoas que amamos se elas estivem no lugar daqueles doentes. Por tudo isso, se seguiu um silêncio entre nós, apenas uma mensagem o penetrou quando cruzamos olhares. Tudo inconsciente, mas nós nos compreendíamos. Um de nós quatro deveria ser o(a) acadêmico(a) incumbido(a) pelo Matheus. Depois da escolha, fomos, então, à enfermaria. Lá, a mãe de Matheus estava ao lado do leito tentando em vão aliviar o sofrimento de seu filho com uns ventinhos que produzia através da movimentação de um pedaço de papel. Era o único recurso que possuía, não exatamente para arrancar a dor que insuportavelmente o fazia gritar, mas para ter a sensação de fazer algo pelo seu filho. A perturbação da imobilidade seria pior. Os gritos apunhalavam o coração daquela mãe. Arranhavam a sua alma materna. Esfriavam sua face com lágrimas. Matheus estava recebendo analgésico potente, acima só a sedação ou a morfina que, apesar do pedido da mãe, a professora não quis fazer pelo risco de parada cardiorrespiratória, pois não havia naquele momento material para ser usado caso isso ocorresse.

O Matheus não foi meu paciente, mas o visitei algumas vezes. Na primeira vez que o vi no isolamento, pois ele havia sido transferido da enfermaria para lá, foi difícil reconhecê-lo. A doença consumira ferozmente o seu corpo. Arrancou-lhe a consciência. E o pior do que o cheiro confinado naquele quarto, era o odor incômodo de morte próxima. A mãe sentada ao lado, desenhava uma expressão de conformidade. Alguns dias depois, nós presenciamos um diálogo entre a professora e os pais de Matheus. Falavam de procedimentos pós-obito, enquanto a figura do Matheus insistindo a viver centralizava o vidro do isolamento que estava a nossa frente.

Crianças sempre trazem na doçura de suas existências, a essência do que é mais simples e o que é realmente necessário para uma vida feliz. E nisso elas estão muito mais próximas do que qualquer adulto. Seus olhares carregam uma explosão de vida. Seus sorrisos parecem mais amplos. E são. Seus abraços são mais fortes. Suas sinceridades desafiantes. Hoje, o Matheus não consegue mostrar seus olhos, não sorrir, não abraça, não fala. Deus chama Matheus!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Poder


"'Esse menino é irrecuperável'. E assim foi feito o diagnóstico pela diretora rabujenta da FEBEM. E talvez ela tivesse razão.Eu era um piralho que aprontava muito. Muito mesmo. Passava a maior parte do dia na rua.Mamãe se desgastava o dia inteiro no trabalho de doméstica.Meu pai? Não sabia quem era. Muitas vezes eu chegava de madruga em casa e já encontrava mamãe em sono profundo, mas eu sabia que dormira me esperando. A vida ganhava outros tons na rua. Nunca tive disposição e paciência para estudar.É verdade que nao tinha muita coisa para se fazer, mas é verdade que os pequenos furtos que eu e meus colegas cometíamos nos traziam uma sensação diferente, além é claro de podermos comprar coisas que as nossas condições nao permitiam. Mas sempre havia a chatice de sermos capturados pelos policiais. E sempre acabávamos na FEBEM. Mas apesar da pouca idade, já tinha adquirido habilidade em fugir. A FEBEM havia despertado um talento nato que estava escondido dentro de mim.Era um ciclo certo. Detenção. fuga. Rua. Detenção...Mas foi nesse lugar que minha vida começou a mudar. Foi um dia que uma mulher estava visitando a FEBEM. Era uma loira muito alta, de sotaque engraçado. A diretora a acompanhava durante a visita e quando me viu listou todo o meu currículo. Que orgulho!!! Ninguém ali tinha mais fugas do que eu. Ninguém ali havia tao cedo cometido tantos furtos. E eu olhava para os colegas com um sorriso irônico e de superioridade enquanto ela comentava sobre mim. Não tinha jeito. Não haveria nenhuma solução futura. E a gringa exercia uma expressão de que não acreditava naquelas palavras. Como não tem jeito? É apenas uma criança!!! Depois daquele dia, não a vi mais. Fui encontrá-la num dia em que eu ‘passeava’ na praia. ‘Hei, vc não é o ‘Robertô’?’ Nossa! Foi uma surpresa incrível. Me deixou sem palavras. Ela havia lembrado de mim. Me chamou pelo meu nome.Um menino de rua, mal-educado, pivete, negro, miserável, e , o mais importante, que não tinha jeito. Pela primeira vez me senti gente. ‘’Robertô’, vc não quer morar comigo?’ Foi uma proposta digna de muita suspeita. Mas fui. Em uma semana ela já havia preparado tudo para a adoção. Não foi fácil me suportar. No começo, continuei a ir pra rua. Roubava pequenos objetos de seu apartamento. Mas ela nunca me acusou. Sempre tratava tudo com muito carinho e tristeza. ‘ ‘Robertô’, você viu o som que estava aqui?’ E eu sempre mentia. Porém, eu sempre via nos seus olhos uma profunda tristeza, mas ela sempre desenhava um sorriso de esperança no rosto e me abraça tão forte que eu chegava a sentir o seu amor. Não sei porque eu fazia aquilo. Talvez fosse para testá-la. Um teste bobo. O fato é que fui parando de ir pra rua e de roubar, até largar totalmente. Mas teve um dia que foi o mais especial de nós dois. Parecia que ela tinha um compromisso muito importante na França. Pronto. Imaginei que iria me abandonar. Mais uma vez estaria revezando entre a rua e a FEBEM. Entao, deixei a torneira da banheira aberta. Quando ela chegou, encontrou o banheiro alagado. ‘Robertô, Robertõ, onde vc está?’ Esperava ela no quarto. Estava fingindo dormir. Ela abriu a porta. Já pensava o que iria dizer. Que iria me devolver. Sim, me devolveria, como um objeto defeituoso, ,imprestável. ‘Robertô, acho que você esqueceu a torneira aberta’ Foi aí que a olhei e a vi chorar pela primeira vez. Foi uma emoção muito forte. Atingiu as profundezas da alma. Choramos muito. E me abraçou de uma formar que eu nunca mais esqueci. Era a sua formar de dizer q me amava. ‘Eu não vou viajar. Menino, eu nunca vou te abandonar’. Era o q eu precisava ouvir. Era o que eu precisava sentir. A partir daí , definitivamente, o passado nunca mais iria voltar. Eu havia amadurecido pelo o amor de uma mulher que acreditava em mim, que me amava. A melhor mãe do mundo!!!” Quando eu escutei essa história uma emoção muito grande me envolveu. É incrível o poder do amor. Ele transforma. Cura. Hoje o menino que não tinha jeito é Mestre em pedagogia e fundador de uma ONG que ampara menores de rua.




Não consegui colocar o vídeo em que Roberto Carlos Ramos é entrevistado pelo jô: http://www.youtube.com/watch?v=BMlfGjyHSBQ&feature=related

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Barreiras



Barreiras são feitas para serem quebradas, trituradas. Não exatamente...Podemos fazer alguns rabiscos coloridos; uns desenhos divertidos; lambuzar a mão de tinta e depois carimbar em sua parede; chamar amigos para ajudar; escrever mensagens sobre aquilo em que acreditamos; solicitar aos nossos pais como podemos fazer melhor, porque seus olhares são energizados de experiência de vida, e seus combustíveis, de amor. Podemos encontrar algumas curvas defeituosas feitas, retas destrambelhadas, emanharados de linhas perdidas em caminhos incompreensíveis, cores entrelaçadas em perfil desarmônico que nos confunde em nossas próprias escolhas. Tudo isso podendo ser construído sem a percepção de nossos erros ou como fazer para apagá-los ou redefini-los da melhor maneira possível, mas é assim que descobrimos nossos grandes mestres que nos ajudam a buscar o caminho certo, as cores concordantes, a simetria de nossos rabiscos e a geometria perfeita. Além disso, até podemos construir uma porta do tamanho do nosso esforço para que possamos atingir o outro lado do muro e torna-lo mais alegre..

Durante esses seis anos estivemos pintando e desenhando neste muro. Muro árduo, de limites revelados ano a ano. Muro de concreto e feições cinzentas e frias, porém hoje transformado, colorido, guardado na lembrança, porque hoje o vencemos. Hoje nos tornamos médicos. E como alunos, nós descobrimos na medicina segredos da vida. Ampliamos o ser humano para direções muitas vezes esquecidas. Passamos a decifrar as suas angústias, os seus sofrimentos, os seus medos, as suas frustrações, as suas mudanças. Descobrimos que pequenos detalhes podem nos revelar a essência de nossos pacientes e que eles têm o poder de nos mostrar nossos grandes erros. Compreendemos não somente os mecanismos anatômicos, os aspectos fisiológicos complexos, a arquitetura da patologia, os caminhos gerais das especialidades...Não somente isso...Aprendemos que os pacientes não são apenas nomes de doenças em quadros de salas de prescrições. Reconhecemos o grande valor do simples ato de chamá-los pelos seus nomes, a força de um aperto de mãos e a claridade que desloca a escuridão de suas dúvidas quando nos propusemos a explicar sobre a sua doença e o tratamento.

Abraçamos uma medicina que não só cura, mas que também transforma as vidas das pessoas. Ser médico significa mergulhar nessas vidas e ter a sensibilidade de reconhecer que provocar mudanças é uma via dupla que também o transforma, o torna melhor como pessoa. Tudo o que fizemos foi por alguém que ainda nem conhecemos, mas que em algum lugar, em algum momento, precisará de nossa ajuda e do nosso preparo. Todas as noites percorridas em conjunto com livros e apostilas, os finais-de-semana preenchidos de atividades que transbordaram de outros dias e o cansaço que em muitas situações sentimos o seu peso carregaram na essência esse objetivo.

Estivemos juntos pintando este muro. Às vezes um pouco mais próximos, outras vezes, mais distantes. Fomos introduzidos na vida de grandes pessoas, amigos que fizeram a diferença e que solidificaram um futuro impossível sem eles. A medicina se fez em uma especial e surpreendente interseção dessas vidas. Foram seis anos de dinâmica metamórfica. Partindo do início modelado pela admiração. Caminhamos absorvendo o que de melhor cada um possuía. Nos vemos chegar no fim, do outro lado do muro, transformados e tão parecidos. Construímos uma pequena família. Fomos muitas vezes confidentes únicos. Testemunhas de momentos inesquecíveis dessas pessoas inesquecíveis. Amigos que nos fizeram tão bem que se constituíam numa fonte poderosa de abraços silenciosos que abafaram muitas angústias sem disser uma palavra.

Hoje, olhamos por diante de nossos ombros e vemos um grande muro de cores. Não foi fácil, mas não estamos apenas aqui, deste lado, não apenas passamos pelo muro, fizemos mais que isso, fizemos desenhos com tinta vitalícia da dedicação nos dois lados. Tudo isso para que possamos olhar para trás e sorri, porque fizemos o melhor que podemos...