
"'Esse menino é irrecuperável'. E assim foi feito o diagnóstico pela diretora rabujenta da FEBEM. E talvez ela tivesse razão.Eu era um piralho que aprontava muito. Muito mesmo. Passava a maior parte do dia na rua.Mamãe se desgastava o dia inteiro no trabalho de doméstica.Meu pai? Não sabia quem era. Muitas vezes eu chegava de madruga em casa e já encontrava mamãe em sono profundo, mas eu sabia que dormira me esperando. A vida ganhava outros tons na rua. Nunca tive disposição e paciência para estudar.É verdade que nao tinha muita coisa para se fazer, mas é verdade que os pequenos furtos que eu e meus colegas cometíamos nos traziam uma sensação diferente, além é claro de podermos comprar coisas que as nossas condições nao permitiam. Mas sempre havia a chatice de sermos capturados pelos policiais. E sempre acabávamos na FEBEM. Mas apesar da pouca idade, já tinha adquirido habilidade em fugir. A FEBEM havia despertado um talento nato que estava escondido dentro de mim.Era um ciclo certo. Detenção. fuga. Rua. Detenção...Mas foi nesse lugar que minha vida começou a mudar. Foi um dia que uma mulher estava visitando a FEBEM. Era uma loira muito alta, de sotaque engraçado. A diretora a acompanhava durante a visita e quando me viu listou todo o meu currículo. Que orgulho!!! Ninguém ali tinha mais fugas do que eu. Ninguém ali havia tao cedo cometido tantos furtos. E eu olhava para os colegas com um sorriso irônico e de superioridade enquanto ela comentava sobre mim. Não tinha jeito. Não haveria nenhuma solução futura. E a gringa exercia uma expressão de que não acreditava naquelas palavras. Como não tem jeito? É apenas uma criança!!! Depois daquele dia, não a vi mais. Fui encontrá-la num dia em que eu ‘passeava’ na praia. ‘Hei, vc não é o ‘Robertô’?’ Nossa! Foi uma surpresa incrível. Me deixou sem palavras. Ela havia lembrado de mim. Me chamou pelo meu nome.Um menino de rua, mal-educado, pivete, negro, miserável, e , o mais importante, que não tinha jeito. Pela primeira vez me senti gente. ‘’Robertô’, vc não quer morar comigo?’ Foi uma proposta digna de muita suspeita. Mas fui. Em uma semana ela já havia preparado tudo para a adoção. Não foi fácil me suportar. No começo, continuei a ir pra rua. Roubava pequenos objetos de seu apartamento. Mas ela nunca me acusou. Sempre tratava tudo com muito carinho e tristeza. ‘ ‘Robertô’, você viu o som que estava aqui?’ E eu sempre mentia. Porém, eu sempre via nos seus olhos uma profunda tristeza, mas ela sempre desenhava um sorriso de esperança no rosto e me abraça tão forte que eu chegava a sentir o seu amor. Não sei porque eu fazia aquilo. Talvez fosse para testá-la. Um teste bobo. O fato é que fui parando de ir pra rua e de roubar, até largar totalmente. Mas teve um dia que foi o mais especial de nós dois. Parecia que ela tinha um compromisso muito importante na França. Pronto. Imaginei que iria me abandonar. Mais uma vez estaria revezando entre a rua e a FEBEM. Entao, deixei a torneira da banheira aberta. Quando ela chegou, encontrou o banheiro alagado. ‘Robertô, Robertõ, onde vc está?’ Esperava ela no quarto. Estava fingindo dormir. Ela abriu a porta. Já pensava o que iria dizer. Que iria me devolver. Sim, me devolveria, como um objeto defeituoso, ,imprestável. ‘Robertô, acho que você esqueceu a torneira aberta’ Foi aí que a olhei e a vi chorar pela primeira vez. Foi uma emoção muito forte. Atingiu as profundezas da alma. Choramos muito. E me abraçou de uma formar que eu nunca mais esqueci. Era a sua formar de dizer q me amava. ‘Eu não vou viajar. Menino, eu nunca vou te abandonar’. Era o q eu precisava ouvir. Era o que eu precisava sentir. A partir daí , definitivamente, o passado nunca mais iria voltar. Eu havia amadurecido pelo o amor de uma mulher que acreditava em mim, que me amava. A melhor mãe do mundo!!!” Quando eu escutei essa história uma emoção muito grande me envolveu. É incrível o poder do amor. Ele transforma. Cura. Hoje o menino que não tinha jeito é Mestre em pedagogia e fundador de uma ONG que ampara menores de rua.
Não consegui colocar o vídeo em que Roberto Carlos Ramos é entrevistado pelo jô: http://www.youtube.com/watch?v=BMlfGjyHSBQ&feature=related

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