
Não eram apenas os abscessos que se digladiavam dentro do seu cérebro. Havia também cavidades com ar. Processos destrutivos que corroíam seu tecido nos dois lados, nos lobos temporais. A massa encefálica encharcada se comprimia aos limites ósseos. O líquido cefalorraquidiano abarrotava um dos ventrículos laterais enquanto o outro já se apagara. Todos esses processos contribuíam para aumentar a pressão dentro de sua cabeça. Tudo havia começado quando era apenas um bebê. Portado de lábio leporino, um fator de risco, apresentava infecção do ouvido de repetição que se alastrou por muitos anos. A sua mãe chegou a nos relatar que saia leite pelo ouvido quando Matheus mamava. Agora com 11 anos, a doença tornou-se crônica e a demora para o atendimento permitiu a instalação de infecção grave e de difícil manejo terapêutico. Pelos seus ouvidos, percorriam quantidade expressiva de material purulento de odor fétido. A infecção no ouvido havia lançado seus tentáculos para o osso mastóide, que fica atrás da orelha, e desenvolvido um quadro de meningite....
...Era a nossa primeira aula na enfermaria de pediatria no Hospital João de Barros Barreto. Em meio a diversas informações dispersas na sala de prescrição, nós conhecemos o Matheus como, segundo o diálogo que se transcorria lá naquele momento, “menino da secreção podre”, “...do odor pútrido que exalava de seu ouvidos e ”, do paciente que estava “ ‘empestiando’ a enfermaria”. Um estalo nos percorreu a alma. Sabíamos que seria um caso difícil, não apenas pela questão do estado do paciente, mas também por que sabíamos que seria difícil para nós acompanharmos um menino com tantas complicações sem sentir a amargura de um futuro sombrio para ele. Durante todos esses anos abraçados com a medicina, já chegamos algumas vezes ter como pacientes pessoas com sofrimento além do que poderíamos imaginar e acabamos por nos transportar para uma condição também de sofrimento, de frustração, de tristeza, de chegar a pensar nas pessoas que amamos se elas estivem no lugar daqueles doentes. Por tudo isso, se seguiu um silêncio entre nós, apenas uma mensagem o penetrou quando cruzamos olhares. Tudo inconsciente, mas nós nos compreendíamos. Um de nós quatro deveria ser o(a) acadêmico(a) incumbido(a) pelo Matheus. Depois da escolha, fomos, então, à enfermaria. Lá, a mãe de Matheus estava ao lado do leito tentando em vão aliviar o sofrimento de seu filho com uns ventinhos que produzia através da movimentação de um pedaço de papel. Era o único recurso que possuía, não exatamente para arrancar a dor que insuportavelmente o fazia gritar, mas para ter a sensação de fazer algo pelo seu filho. A perturbação da imobilidade seria pior. Os gritos apunhalavam o coração daquela mãe. Arranhavam a sua alma materna. Esfriavam sua face com lágrimas. Matheus estava recebendo analgésico potente, acima só a sedação ou a morfina que, apesar do pedido da mãe, a professora não quis fazer pelo risco de parada cardiorrespiratória, pois não havia naquele momento material para ser usado caso isso ocorresse.
O Matheus não foi meu paciente, mas o visitei algumas vezes. Na primeira vez que o vi no isolamento, pois ele havia sido transferido da enfermaria para lá, foi difícil reconhecê-lo. A doença consumira ferozmente o seu corpo. Arrancou-lhe a consciência. E o pior do que o cheiro confinado naquele quarto, era o odor incômodo de morte próxima. A mãe sentada ao lado, desenhava uma expressão de conformidade. Alguns dias depois, nós presenciamos um diálogo entre a professora e os pais de Matheus. Falavam de procedimentos pós-obito, enquanto a figura do Matheus insistindo a viver centralizava o vidro do isolamento que estava a nossa frente.
Crianças sempre trazem na doçura de suas existências, a essência do que é mais simples e o que é realmente necessário para uma vida feliz. E nisso elas estão muito mais próximas do que qualquer adulto. Seus olhares carregam uma explosão de vida. Seus sorrisos parecem mais amplos. E são. Seus abraços são mais fortes. Suas sinceridades desafiantes. Hoje, o Matheus não consegue mostrar seus olhos, não sorrir, não abraça, não fala. Deus chama Matheus!
...Era a nossa primeira aula na enfermaria de pediatria no Hospital João de Barros Barreto. Em meio a diversas informações dispersas na sala de prescrição, nós conhecemos o Matheus como, segundo o diálogo que se transcorria lá naquele momento, “menino da secreção podre”, “...do odor pútrido que exalava de seu ouvidos e ”, do paciente que estava “ ‘empestiando’ a enfermaria”. Um estalo nos percorreu a alma. Sabíamos que seria um caso difícil, não apenas pela questão do estado do paciente, mas também por que sabíamos que seria difícil para nós acompanharmos um menino com tantas complicações sem sentir a amargura de um futuro sombrio para ele. Durante todos esses anos abraçados com a medicina, já chegamos algumas vezes ter como pacientes pessoas com sofrimento além do que poderíamos imaginar e acabamos por nos transportar para uma condição também de sofrimento, de frustração, de tristeza, de chegar a pensar nas pessoas que amamos se elas estivem no lugar daqueles doentes. Por tudo isso, se seguiu um silêncio entre nós, apenas uma mensagem o penetrou quando cruzamos olhares. Tudo inconsciente, mas nós nos compreendíamos. Um de nós quatro deveria ser o(a) acadêmico(a) incumbido(a) pelo Matheus. Depois da escolha, fomos, então, à enfermaria. Lá, a mãe de Matheus estava ao lado do leito tentando em vão aliviar o sofrimento de seu filho com uns ventinhos que produzia através da movimentação de um pedaço de papel. Era o único recurso que possuía, não exatamente para arrancar a dor que insuportavelmente o fazia gritar, mas para ter a sensação de fazer algo pelo seu filho. A perturbação da imobilidade seria pior. Os gritos apunhalavam o coração daquela mãe. Arranhavam a sua alma materna. Esfriavam sua face com lágrimas. Matheus estava recebendo analgésico potente, acima só a sedação ou a morfina que, apesar do pedido da mãe, a professora não quis fazer pelo risco de parada cardiorrespiratória, pois não havia naquele momento material para ser usado caso isso ocorresse.
O Matheus não foi meu paciente, mas o visitei algumas vezes. Na primeira vez que o vi no isolamento, pois ele havia sido transferido da enfermaria para lá, foi difícil reconhecê-lo. A doença consumira ferozmente o seu corpo. Arrancou-lhe a consciência. E o pior do que o cheiro confinado naquele quarto, era o odor incômodo de morte próxima. A mãe sentada ao lado, desenhava uma expressão de conformidade. Alguns dias depois, nós presenciamos um diálogo entre a professora e os pais de Matheus. Falavam de procedimentos pós-obito, enquanto a figura do Matheus insistindo a viver centralizava o vidro do isolamento que estava a nossa frente.
Crianças sempre trazem na doçura de suas existências, a essência do que é mais simples e o que é realmente necessário para uma vida feliz. E nisso elas estão muito mais próximas do que qualquer adulto. Seus olhares carregam uma explosão de vida. Seus sorrisos parecem mais amplos. E são. Seus abraços são mais fortes. Suas sinceridades desafiantes. Hoje, o Matheus não consegue mostrar seus olhos, não sorrir, não abraça, não fala. Deus chama Matheus!

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