
Ao rever seu prontuário hoje pela manhã, contei que havia recebido 20 unidades de concentrado de hemáceas. 20! Isso significa que o total de volume transfundido foi além do necessário para uma pessoa de 70Kg trocar todo seu sangue. Não tinha 70Kg. Talvez uns 55 Kg. Uma jovem de 35 anos do município de Magalhães Barata-Pa. Tinha o corpo esguio, sugado pela força injusta de um câncer de útero, enfraquecido pelo sangramento contínuo e inevitável, perturbado pela dor que se entranhava em sua perna esquerda. O tumor havia se rebelado contra seus próprios limites e fincara-se nos órgãos próximos, provocando insuficiência renal com necessidade de hemodiálise. A equipe de ginecologia ao registrar o produto de sua avaliação, colocou no prontuário: TUMOR INOPERÁVEL. Realmente era impossível retirá-lo, mas o tom das letras maiúsculas assegurava um sentimento sombrio de incapacidade. Havia uma palavra triste implícita: “infelizmente”. A alternativa cabível era a radioterapia que prolongaria a sua vida, uma conduta para tentar conter o sangramento. Entretanto, Dona Maria não será submetida a esse tratamento paliativo. As sessões de hemodiálise que já a tiraram de um edema agudo de pulmão, não serão mais garantidas. As medicações deixarão de constar na sua rotina. Dona Maria decidiu evadir-se. Convencê-la a ficar tornou-se a missão da equipe multidisciplinar. A sua posição impenetrável perpetuava nos esforços um medida inútil, vencida. Todos que iam até Dona Maria, voltavam para se juntar àqueles que no conjunto de seus insucessos, fortaleciam ainda mais a irrevogabilidade da evasão. E o tempo se alargava, esgotava-se, o discurso repetitivo transformava-se em poeira. Entregamo-nos ao cansaço intenso que nos tomou, por fim. Dona Maria implantou o conformismo com poucas palavras e muita resistência. Seu quase silêncio nos convenceu. Queria voltar para a sua cidade para ficar ao lado de seus cinco filhos, todos crianças ainda. Nenhum doutor, ninguém com jaleco e argumentos impecáveis arrancaria o desejo instintivo de um amor de uma mãe. Dona Maria sabia sobre o seu diagnóstico e a sua gravidade. Não esboçou reação ao saber que sua atitude resultaria em morte mais rápida. Talvez um sentimento perturbador e confuso a fizesse agir daquela maneira. Pior que a morte, seria morrer com o vazio enegrecido pela saudade dos filhos. O mesmo órgão que permitiu a maternidade, hoje a retira do convívio com seus filhos. Porém, Dona Maria entende que a sua força não está na luta contra o câncer, está numa perspectiva simples e bela. O tumor lhe deu a convicção, nunca abalada, que o seu bem maior encontra-se nos seus filhos. O maior de todos os sentimentos. O amor incondicional. E são cinco os seus amores... Hoje pela manhã, fechando a sua alta, é inevitável a pergunta: como estará neste momento a Dona Maria? viva? O melhor questionamento surge com reposta certa: Dona Maria estará feliz?

Nenhum comentário:
Postar um comentário